O calendário marcou, no último dia 9 de junho de 2026, uma data que o Espírito Santo gostaria de ter comemorado com o início de obras, mas que foi celebrada apenas com a melancolia de uma promessa não cumprida. Há exatos 11 anos, o Programa de Investimentos em Logística anunciava a construção da Ferrovia EF-118, o corredor ferroviário desenhado para ligar Vitória (ES) ao Rio de Janeiro. Hoje, o projeto permanece como um imenso ponto de interrogação no mapa logístico brasileiro.
Em Brasília, o cenário de estagnação foi confrontado diretamente. Durante o programa “Bom Dia, Ministro”, da Rádio GOV, o diretor do ES 365, Dhyovaine Nascimento, posicionou o Espírito Santo no centro do debate nacional. Como único representante da imprensa capixaba a participar da entrevista com o ministro dos Transportes, George Santoro, o ES 365 cobrou transparência sobre o motivo de uma obra estratégica ainda estar sendo refém de burocracias tardias.
A EF-118 é, indiscutivelmente, a espinha dorsal necessária para destravar o potencial econômico do Sul do Espírito Santo. Em uma década marcada por promessas, o setor produtivo regional viu a competitividade escorrer pelas mãos. A ausência da ferrovia mantém o estado refém do modal rodoviário, encarecendo produtos, limitando o escoamento de grãos e minérios e retardando o desenvolvimento regional.
Mais do que trilhos, a ferrovia representa a integração logística com o maior eixo industrial do país. Onze anos de atraso não significam apenas um cronograma dilatado; significam investimentos que não vieram, empresas que não se instalaram e um desenvolvimento que ficou retido na burocracia estatal.
É fundamental reconhecer que a proteção do nosso passado é condição sine qua non para um futuro civilizado. O IPHAN desempenha um papel inestimável como a salvaguarda do patrimônio arqueológico e histórico brasileiro, garantindo que as marcas da nossa cultura e a memória de civilizações que habitaram o solo capixaba sejam preservadas. A conservação desses sítios dentro da área de influência da EF-118 é, portanto, uma responsabilidade ética e legal que o projeto deve e precisa observar com rigor.
Contudo, a sociedade capixaba não aceita mais que essa missão nobre seja utilizada como uma “cortina de fumaça” para a ineficiência administrativa. É preciso pontuar: os estudos arqueológicos já faziam parte do plano original. O surgimento de “novas exigências” após mais de uma década de discussões soa não como zelo, mas como um entrave burocrático inaceitável. O tempo de planejamento que deveria ter sido exaustivo nos primeiros anos — já se esgotou. A compatibilização técnica entre o progresso ferroviário e a preservação arqueológica deveria ser, à esta altura, uma página virada, não um obstáculo recorrente para postergar o início das obras. A conservação não deve ser um entrave, mas parte integrante de um planejamento que, após 11 anos, já deveria ter superado tais etapas.
Diante da cobrança do único veículo capixaba presente no programa, o ministro George Santoro tentou acalmar os ânimos. Segundo o titular da pasta, a nova política pública de concessões ferroviárias busca evitar que novos gargalos surjam após a licitação, com a realização do licenciamento prévio antes do leilão.
O Ministério assegurou que o impasse com o IPHAN está endereçado e que o projeto encontra-se em fase de análise no Tribunal de Contas da União (TCU), com expectativa de aprovação entre junho e julho deste ano. A promessa é de que, após esse aval, o edital de concessão finalmente venha a público.
A participação exclusiva do ES 365 na entrevista nacional não foi apenas um ato jornalístico, mas uma afirmação de soberania regional. Enquanto o Espírito Santo for tratado como coadjuvante nas decisões sobre sua própria infraestrutura, o portal seguirá ocupando esses espaços, cobrando prazos e expondo contradições.
Após 11 anos de espera, o apito do trem não é mais um sonho distante, mas uma cobrança urgente. O ES 365 assume, a partir de agora, o monitoramento constante dos trâmites no TCU. O Espírito Santo não aceita mais justificativas; o estado exige que o projeto EF-118 saia das gavetas dos ministérios e chegue, de uma vez por todas, ao solo capixaba. A contagem regressiva para a próxima etapa em Brasília começou hoje.
