Projeto “Vozes dos Manguezais” ganha alcance na
Global Mangrove Alliance através de iniciativa da FAPES para conservação costeira
Projeto liderado pela FAPES conquista reconhecimento ao ingressar na Mangrove Breakthrough — aliança mundial para restauração de ecossistemas de mangue até 2030.
Um ecossistema capixaba no centro do debate ambiental mundial
O trabalho de preservação e restauração dos manguezais de Guarapari, financiado pela FUNDÁGUA, FUNCITEC-ES e pelo Governo do Estado do Espírito Santo por meio da FAPES, e executado pelo IFES Campus Piúma com atuação em comunicação e sensibilização do Instituto Reritiba, acaba de romper fronteiras geográficas.
Manguezal de Guarapari (ES) — ecossistema que abriga biodiversidade marinha e costeira essencial para as comunidades pesqueiras da região.
O projeto “Vozes dos Manguezais” anunciou oficialmente sua entrada na Mangrove Breakthrough — uma iniciativa de escala mundial que reúne esforços globais para salvaguardar ecossistemas de mangue, apoiada pela Global Mangrove Alliance, com metas ambiciosas: restaurar ecossistemas degradados, proteger áreas costeiras vitais e mobilizar bilhões de dólares em investimentos em infraestrutura natural até 2030.
Área de atuação do projeto registrada na plataforma global Restor — monitoramento em tempo real pela comunidade internacional de conservação.
A FAPES como catalisadora do alcance internacional
A Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (FAPES) foi responsável pela iniciativa e gestão da Chamada Pública FAPES/SEAMA nº 13/2024, criando as condições institucionais para que o projeto pudesse estruturar sua base técnica e científica — requisito indispensável para integrar redes globais.
O edital foi pioneiro em âmbito nacional: o Espírito Santo foi o primeiro estado brasileiro a lançar um edital específico sobre manguezal, com um modelo diferenciado de pesquisa em rede que envolve, além da academia, a mobilização do setor econômico para enxergar a preservação como vetor de desenvolvimento regional.
“Vocês participam de uma ação inédita na ciência capixaba. O Espírito Santo foi o primeiro estado a lançar um edital sobre manguezal e ele tem um olhar diferente — um edital de pesquisa em rede, que envolve inclusive a mobilização do setor econômico para olhar para a preservação como uma forma de desenvolvimento regional.”
O valor total de recursos disponibilizados no Edital FAPES/SEAMA nº 13/2024, que apoia projetos de pesquisa e extensão para a restauração ecológica de manguezais no Espírito Santo.
Uma articulação intersetorial sem precedentes
Ramon Moreira de Paula, Subsecretário de Estado de Fomento de Negócios Sustentáveis e Investimentos de Impacto da SEAMA, destacou o protagonismo do governo capixaba em nível nacional nas iniciativas de promoção de negócios sustentáveis. O modelo só foi possível graças a um diálogo construtivo entre instituições de diferentes esferas — academia, poder público, sociedade civil e setores produtivos —, demonstrando como preservação e desenvolvimento econômico podem caminhar juntos.
Ramon Moreira de Paula, Subsecretário de Estado de Fomento de Negócios Sustentáveis e Investimentos de Impacto (SEAMA-ES), com a equipe de pesquisa do Vozes dos Manguezais.
Encontro com parceiros institucionais do projeto — integração entre academia, governo e sociedade civil.
Base técnica sólida para ação no campo
O projeto liderado pelo professor Marlon Carlos França, do IFES Campus Piúma, representa um esforço concentrado para compreender a dinâmica dos ecossistemas de manguezais na área específica de Guarapari. O objetivo primordial é gerar um diagnóstico detalhado das áreas que demandam ações de recuperação, viabilizando intervenções integradas e baseadas em evidências científicas.
Prof. Marlon Carlos França (IFES Campus Piúma) em coleta de campo nos manguezais de Guarapari (ES) — coordenador científico do projeto.
Frentes de atuação
Estruturação de viveiros para cultivo de mudas e recuperação de áreas degradadas dos manguezais.
Análises técnicas que permitem compreender a saúde do solo e da água nos ecossistemas.
Engajamento comunitário e monitoramento contínuo como ferramenta de preservação a longo prazo.
A voz da comunidade: Associação Salvamar
A parceria com organizações comunitárias é parte essencial da metodologia do projeto. A Associação Salvamar, localizada no bairro Perocão, em Guarapari, é uma das entidades que há mais de duas décadas conecta pescadores, crianças e jovens à causa da preservação dos manguezais — e que agora soma forças com o Vozes dos Manguezais.
O coordenador e pesquisador do projeto Vozes dos Manguezais, Marlon Carlos França, e Sebastião Carlos Machado, presidente e fundador da Associação Salvamar, organização localizada no bairro Perocão, em Guarapari (ES).
“A Salvamar nasceu da relação profunda que temos com o mar e com os manguezais. Há mais de 20 anos, buscamos sensibilizar pescadores, crianças e jovens sobre a importância desses ambientes. O projeto ‘Vozes dos Manguezais’ nos fortalece para continuar esse trabalho, ampliando o alcance das nossas ações e unindo esforços com instituições que compartilham a mesma visão. Não estamos apenas protegendo um ecossistema; estamos garantindo que a vida continue pulsando em cada canto do manguezal.”
“Nossos manguezais têm que ser preservados por todos nós. São ecossistemas costeiros vitais e berçários para inúmeras espécies marinhas. Preservá-los é garantir a vida. O principal desafio hoje é a poluição, especialmente o esgoto. Nosso objetivo é recuperar esses pontos degradados e, a longo prazo, alcançar a recuperação total. Estamos atuando ativamente na sede da Associação Salvamar, juntamente com as crianças, acompanhando o dia a dia do crescimento dos propágulos, fazendo a limpeza do local e regando cada um deles.”
Na voz do pesquisador
“Com muita alegria nós recebemos o resultado do cadastro do projeto Vozes dos Manguezais nessa rede chamada Mangrove Breakthrough. Porque trabalhar com a proteção dos ecossistemas de manguezais é trabalhar com a geração de um futuro mais promissor para as comunidades pesqueiras — para que amanhã nós possamos ter segurança alimentar e proteção da biodiversidade dos ecossistemas marinhos e costeiros.”
“A inserção do projeto no cenário global permite que ele seja visto, observado, analisado e conhecido por uma sociedade internacional. E, dessa forma, os produtos gerados — artigos, documentos, relatórios — ganham visibilidade e passam por validação de comitês e revistas internacionais.”
“Isso permite que o projeto possa captar recursos internacionais para dentro de ações locais junto com essas comunidades costeiras — atraindo mais investimentos e ampliando as ações de conscientização para a proteção e preservação dos ecossistemas de manguezais.”
“O manguezal capixaba, agora reconhecido mundialmente, firma-se como um pilar essencial para o equilíbrio climático global. O projeto segue ampliando vozes, territórios e impactos.”
— Equipe Instituto Reritiba
Educação ambiental em ação: 8 km de conscientização
Uma das expressões mais concretas do projeto aconteceu nas praias de Guarapari. Uma ação de Educação Ambiental mobilizou a comunidade ao longo de um trajeto de 8 km, da Praia Recanto dos Amores até o final da Praia de Setiba, reunindo crianças acompanhadas de responsáveis, jovens e adultos em torno de um mesmo propósito.
Durante todo o percurso, os participantes realizaram um trabalho minucioso de coleta de lixo, garantindo que os resíduos encontrados nas faixas de areia e áreas adjacentes fossem devidamente recolhidos e descartados. O evento contou com o apoio e a colaboração de diversos parceiros e iniciativas, unindo o movimento físico ao engajamento comunitário.
O evento serviu como base para a apresentação do projeto “Vozes dos Manguezais”, que utiliza atividades de campo para evidenciar a importância vital desses ecossistemas para a saúde ambiental da região. A iniciativa busca transformar o olhar da comunidade para os manguezais, tratando-os não apenas como paisagem, mas como áreas estratégicas que necessitam de monitoramento e proteção constante.
A ação demonstrou como o engajamento coletivo é fundamental para a manutenção das praias e para a formação de uma consciência ambiental mais crítica. Ao unir a prática de atividades ao ar livre com a responsabilidade ecológica, a atividade estabeleceu um precedente para futuras ações de conservação em Guarapari, reiterando a necessidade de preservar o patrimônio natural do município.
Os segredos geológicos dos manguezais de Guarapari
Por baixo da superfície dos manguezais de Guarapari esconde-se um arquivo meticuloso da história da Terra. Através do estudo de camadas de sedimentos, a ciência está conseguindo visualizar como este ecossistema se deslocou pela paisagem capixaba muito antes dos primeiros registros históricos da região.
O trabalho é conduzido pelo Dr. Victor Rocha Carvalho, doutor em Oceanologia pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), que utiliza o passado para decifrar os desafios que o litoral enfrentará no futuro. Segundo o pesquisador, a configuração atual da região é fruto de uma dinâmica milenar.
“Baseado em estudos recentes realizados na costa do Espírito Santo, a hipótese do meu trabalho é que a área de estudo foi influenciada pelo aumento do nível do mar durante o Holoceno Inicial e Médio. Em escala temporal de séculos, podemos estar diante de uma expansão dos manguezais em direção ao continente, resultado da atual subida do nível do mar.”
Os manguezais funcionam como rastreadores naturais, pois acompanham a variação do nível do mar. Dados coletados na costa do Espírito Santo revelam que esses ecossistemas estavam em uma zona topográfica diferente da atual — localizados em regiões mais elevadas quando o nível do mar estava alto. Nos últimos séculos, essa expansão continental voltou a ocorrer devido à nova subida das águas.
Para “ler” essas transformações, a equipe utiliza uma abordagem de análises físicas, químicas, biológicas e geológicas. O estudo cruza diferentes indicadores — grãos de pólen, isótopos estáveis e análise granulométrica — permitindo uma reconstituição paleoambiental e da paleoflora em escala de milênios a séculos. A coleta exige testemunhos de solo que alcançam entre 3 e 4 metros de profundidade, coletados desde a porção permanentemente recoberta pela lâmina d’água até a zona onde o solo do mangue é mais seco.
Através da técnica de datação por Pb 210 (Chumbo-210) e Carbono-14, a pesquisa também isolou os estratos referentes aos últimos 200 anos — período em que é possível associar as mudanças na assembleia polínica com alterações na estrutura, textura e cor do sedimento, marcando com precisão a influência humana sobre o ecossistema.
“Para entendermos essas transformações, é essencial estudar os processos do passado, para assim entendermos o presente e modelar a dinâmica desses ecossistemas em um futuro não tão distante.”
A pesquisa além da sala de aula: I Workshop de Campo
Entre os dias 1 e 5 de setembro de 2025, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Concha da Ostra e os rios Una e Perocão foram o cenário do I Workshop do projeto “Vozes dos Manguezais de Guarapari”. Cientistas do IFES Campus Piúma e da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES — Campus Alegre) se uniram para diagnosticar as condições dos manguezais da região, produzindo dados rigorosos capazes de guiar a conservação em escala nacional.
A expedição realizou um levantamento biogeoquímico e paleontológico com coletas em transectos abrangendo diferentes ambientes pedológicos e florísticos — de áreas preservadas a zonas antropizadas — com amostras coletadas em profundidades entre 0 e 20 cm, permitindo análise mineralógica dos horizontes superficiais mais sensíveis ao impacto ambiental.
I Workshop do projeto “Vozes dos Manguezais de Guarapari” — coleta de dados geoquímicos e paleontológicos em campo, setembro de 2025.
“Você não consegue entender o que é um manguezal pelos livros. Somente andando você pode de fato compreender a dimensão dos recursos e a importância desses ambientes. As atividades práticas possibilitam uma visão diferente das dinâmicas naturais em constante contato com o avanço da ocupação desordenada e suas consequências.”
“A vivência prática permite integrar o conhecimento pedológico e geoquímico à dinâmica ecológica dos manguezais, mostrando de forma aplicada como o solo, a água e a vegetação interagem e condicionam o funcionamento desse ecossistema. Tenho a expectativa de que os dados forneçam uma visão consistente sobre o grau de poluição da área e que, com base nesses resultados, seja possível mapear as áreas mais críticas em termos de contaminação, subsidiando ações de remediação.”
“O trabalho de campo exige a aplicação prática de conceitos, o enfrentamento de condições diversas e a tomada de decisões imediatas frente a imprevistos. Os dados mineralógicos e geoquímicos poderão servir como base científica para políticas públicas de conservação e recuperação de áreas impactadas, além de contribuir para sensibilizar a sociedade sobre a importância dos manguezais como ecossistemas estratégicos para biodiversidade e proteção costeira.”
“Minha expectativa é que os dados obtidos sejam capazes de gerar informações sólidas para subsidiar estratégias de conservação, recuperação e manejo sustentável dos manguezais de Guarapari — orientando políticas públicas ambientais mais eficazes, voltadas ao reflorestamento, à proteção da biodiversidade e à mitigação de impactos antrópicos.”
“O aprendizado em campo costuma ser mais intenso do que na sala de aula, já que permite entender na prática o funcionamento do manguezal e os desafios do ambiente. Acredito que o projeto possa influenciar não só a comunidade local de Guarapari, mas também as regiões próximas, fortalecendo a conservação dos manguezais.”
Cronologia
Lançamento da Chamada Pública FAPES/SEAMA nº 13/2024 — primeiro edital sobre manguezal de um estado brasileiro.
Emissão do Termo de Outorga 005/2025 e início formal das atividades do projeto “Vozes dos Manguezais”.
Seminário Marco Zero: apresentação pública dos resultados preliminares e alinhamento estratégico com parceiros institucionais.
Integração oficial à Mangrove Breakthrough e presença ativa na plataforma Restor — marco histórico de reconhecimento internacional.
Contribuição às metas globais da Global Mangrove Alliance: restauração, proteção costeira e mobilização de investimentos em infraestrutura natural.


